
0928 | Agentes, teclados e NPCs: a IA do dia a dia
Show notes
Neste episódio: a OpenAI lança o GPT-6 Sol e Luna a metade do preço, e a Humalike dá vida aos NPCs de GTA Roleplay. Depois, olhamos para agentes de IA no trabalho — o Superhuman Go e o Harmony nos tickets de IT — e terminamos com hardware e ferramentas para o dia a dia: o Clicks Communicator, o KiwiDesk para macOS e o Cuey para comparar respostas de IA.
Linha do tempo
- 00:00:04 Abertura
- 00:01:21 GPT-6 Sol & Luna: inteligência de fronteira a metade do preço
- 00:05:24 Superhuman Go: o assistente que trabalha onde tu trabalhas
- 00:08:33 Harmony: agentes de IA que resolvem tickets de IT fim a fim
- 00:13:50 Humalike: NPCs de IA que falam, lembram e agem sozinhos em GTA RP
- 00:18:59 Cuey: uma segunda opinião antes de confiar na primeira
- 00:22:07 Clicks Communicator: o teclado de volta ao centro do telefone
- 00:28:00 KiwiDesk: tiling no macOS sem terminal nem SIP
- 00:30:57 Encerramento
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Transcript
Sofia Almeida: Olá e bem-vindos ao briefing diário! Eu sou a Sofia Almeida.
Rafael Costa: E eu sou o Rafael Costa. E sim, este é exatamente isso que parece: um passeio pelo que acabou de chegar ao Product Hunt nas últimas vinte e quatro horas, mas sem o tom de comunicado de imprensa. A ideia hoje é escolher um punhado de lançamentos que nos parecem ter a história mais clara — um problema real, uma solução com diferenças concretas, e comunidade a reagir — e falar deles a fundo, incluindo aquilo que ainda não sabemos.
Sofia Almeida: Exato. E há um fio condutor interessante no conjunto de hoje. Começa com inteligência artificial — mais barata, mais proativa, mais agentic — e vai deslizando até hardware e software de produtividade muito tangíveis. Há uma progressão quase natural: da IA que custa metade, para a IA que vive nas tuas apps, para a IA que resolve tickets de IT, para a IA que vive dentro de um servidor de GTA.
Rafael Costa: E depois saímos completamente do mundo da IA para terminarmos com um telefone com teclado físico e um gestor de janelas para Mac. Vamos por aí. Acho que o sítio óbvio para começar é a OpenAI, porque é a notícia que afeta potencialmente todos os outros lançamentos da lista.
Sofia Almeida: Pois. A OpenAI expandiu a família GPT-6 com dois novos modelos, o Sol e o Luna. E a frase-chave é: inteligência de fronteira a metade do preço. São modelos treinados da mesma forma que o Astra, o topo da família, mas afinados para velocidade e custo. Na prática, o que isso significa é que estás a obter desempenho quase ao nível do Astra — em factibilidade, código e uso de computador — sem pagar o preço do Astra.
Rafael Costa: Vamos pôr números nisto, porque é aqui que fica interessante. O preço da API cai 50% face aos equivalentes do GPT-5.6. E há melhorias no prompt caching: 90% de desconto em leituras de input em cache. Para quem não vive disto, o prompt caching importa muito quando estás a repetir o mesmo contexto longo vezes sem conta — e é exatamente o que acontece em workflows de agentes, onde o mesmo histórico ou o mesmo conjunto de instruções vai e vem em cada chamada.
Sofia Almeida: E há duas comparações de benchmark que valem a pena reter. O Sol supera o Claude Opus 5 no Automation Bench a cerca de 9% do custo por tarefa. E iguala o Claude Fable 5.1 no DeepSWE com cerca de 80% menos custo. Agora, sublinho: isto são alegações da OpenAI nos materiais de lançamento. Benchmarks escolhidos pelo próprio fabricante têm sempre de ser lidos com alguma cautela — são os benchmarks onde eles ganham, à partida.
Rafael Costa: Completamente. Mas mesmo com esse desconto mental, o padrão é reconhecível: é a mesma estratégia de qualquer indústria de hardware ou software — o topo fica lá em cima e o desempenho de ontem desce de preço. O que é novo aqui é a rapidez e o quanto desce. 9% do custo por tarefa é uma diferença que muda a aritmética de um negócio.
Sofia Almeida: E há um detalhe que me pareceu peculiar mas relevante: os modelos trazem ganhos de alinhamento do Astra, incluindo — e esta é a formulação — menos afirmações enganosas sobre o próprio trabalho de código. Ou seja, modelos que mentem menos sobre aquilo que fizeram. Que é um problema real e conhecido: um modelo que te diz que corrigiu o bug quando não corrigiu é pior do que um modelo que admite que falhou.
Rafael Costa: Disponibilidade: está vivo no ChatGPT Work, no Codex, e via API. Portanto é disponível já, não é uma promessa futura. E há um contra-ponto que vale a pena ouvir, porque nem tudo é euforia. Um utilizador no Product Hunt deixou um comentário bastante crítico, e não é um comentário educado e genérico — é uma queixa concreta.
Rafael Costa: A pessoa diz que, depois do lançamento do Astra, a versão normal do ChatGPT teria piorado, cita um exemplo de não conseguir mudar o peso da fonte num ficheiro de HTML e CSS, e acusa os modelos de dizerem sempre que sim, mesmo quando algo está completamente incorreto.
Sofia Almeida: E esse último ponto conecta, ironicamente, com o tal ganho de alinhamento sobre afirmações enganosas. O utilizador está a descrever exatamente o problema que a OpenAI diz estar a atenuar.
Sofia Almeida: Não conseguimos verificar nada disto — são a experiência de uma pessoa de um lado e uma alegação de fabricante do outro — mas é o tipo de fricção que aparece em cada lançamento de modelo: a equipa lança, os utilizadores de longa data sentem regressões nas versões anteriores, e há um desfasamento entre o discurso e a experiência de quem trabalha com a ferramenta todos os dias.
Rafael Costa: E é esse desfasamento que nos leva ao próximo tema, na verdade. Porque se os modelos estão mais baratos e vão correr mais workflows automatizados — mais agentes a fazer mais trabalho sem humano a olhar — então a pergunta óbvia é: como é que confias na resposta que sai de lá? E há um produto de hoje que existe exatamente para isso. Mas antes de lá chegarmos, há um passo intermédio na história: a IA que não espera no chat, mas que vem ter contigo onde já estás a trabalhar.
Sofia Almeida: O Superhuman Go. O pitch é simples: um assistente que funciona dentro das apps que já usas — Gmail, Slack, documentos, o browser — em vez de ser outra janela de chat que tens de abrir e lembrar-te de alimentar com contexto.
Rafael Costa: E vale decompor o que ele faz na prática. Sugere edições enquanto escreves. Redige respostas de email na tua voz. Prepara reuniões antes de pedires — agendas, atribuição de tarefas. E há duas coisas técnicas que separam isto de outro assistente qualquer: primeiro, é proativo em vez de prompt-based. Não esperas que tu lhe peças; ele decide quando intervém.
Rafael Costa: Segundo, é apoiado no motor de escrita com dezassete anos do Grammarly — não é uma IA a começar do zero, é um produto que já existia e que agora ganhou uma camada agentic.
Sofia Almeida: Os outros elementos: agentes custom no-code que correm num horário ou num evento — portanto, coisas que disparam sozinhas — e conectores MCP, que permitem que as sugestões sejam fundamentadas nas tuas ferramentas reais. Isso é importante, porque um assistente que não sabe nada sobre o teu trabalho só consegue dar conselhos genéricos. Com conectores, pode dizer "esta reunião tem a ver com aquele projeto" em vez de adivinhar.
Rafael Costa: E é gratuito para começar. Agora, a objeção que me pareceu a mais inteligente na discussão veio de um comentador que fez exatamente a pergunta certa sobre a diferença entre proativo e prompt-based. A frase era mais ou menos assim: proativo é a coisa mais difícil de acertar, porque um prompt-based só te incomoda quando lhe pedes, mas um proativo tem de adivinhar quando a sugestão é bem-vinda versus quando é apenas ruído que aprendes a ignorar.
Sofia Almeida: Que é uma observação muito certeira. Toda a gente que já usou um assistente mal afinado conhece esse ciclo: começa por ler as sugestões, depois desligam-se mentalmente, e de repente tens um produto que ninguém usa apesar de estar instalado. E o comentador foi mais fundo: sugestões em tempo real em todas as apps — será que o Slack dispara ao mesmo ritmo que uma rascunho longo de email?
Sofia Almeida: Porque a tolerância a interrupção num chat é completamente diferente da tolerância a interrupção num documento que estás a escrever com calma.
Rafael Costa: A pergunta deixada em aberto era se existe afinação por app ou por contexto, ou se é uma sensibilidade global para tudo. O material de lançamento não responde a isso. Portanto é uma questão genuinamente aberta, e é uma das mais importantes, na minha opinião, para este tipo de produto — porque a linha entre útil e irritante é fina e depende do contexto.
Sofia Almeida: E nota que a mesma pessoa que fez essa pergunta estava a comentar o lançamento da OpenAI também — há uma comunidade a sobrepor-se nestes lançamentos. Mas voltemos ao fio que deixámos pendurado. Estamos a viver uma transição: de IA que responde, para IA que age. E o próximo produto é o exemplo mais completo disso na lista de hoje: agentes que não sugerem, executam.
Rafael Costa: Harmony. Uma plataforma ITSM construída em torno de IA — e construída, no sentido literal: não é um chatbot colado a uma ferramenta de tickets, é um helpdesk desenhado com os agentes no centro. Os fundadores são o Ran e o Nitzan, e a credencial é forte: a empresa anterior deles, a Epsagon, foi adquirida pela Cisco por quinhentos milhões de dólares.
Rafael Costa: Depois disso passaram anos a falar com responsáveis de IT em empresas em crescimento, e ouviram sempre a mesma história: o helpdesk come a semana da equipa.
Sofia Almeida: E a lista de coisas que comem a semana é reconhecível para qualquer pessoa que já trabalhou numa empresa: resets de password, pedidos de acesso a aplicações, onboarding, "o meu portátil está lento". Centenas de pedidos repetitivos. E a crítica que eles fazem às ferramentas existentes — Freshservice, Jira Service Management e afins — é afiada: foram desenhadas para registar o trabalho, não para o fazer.
Rafael Costa: E é aí que está a diferença estrutural. No Harmony, o colaborador pede no Slack ou no Teams. O agente verifica a identidade, executa a ação nos teus sistemas — Okta, Entra ID, Google Workspace, mais de cem integrações — e fecha o ciclo. Sem portal, sem formulário. Há mais de cem agentes prontos para produção de origem, mais um construtor para workflows próprios.
Rafael Costa: E ticketing, inventário de ativos, gestão de SaaS e onboarding/offboarding vivem no mesmo espaço de trabalho, o que dá aos agentes o contexto para agir com segurança.
Sofia Almeida: Os números alegados: clientes chegam tipicamente a 60% ou mais de resolução automática nas primeiras semanas. A Cyera está em 89% dos pedidos de colaboradores auto-resolvidos. E a n8n, que é uma empresa que conhece bem automação, corre o IT de centenas de colaboradores com uma única pessoa de IT. De novo: são alegações do fabricante, citadas no lançamento. Mas mesmo que estejam inflacionadas, a arquitetura por trás é o que me parece mais interessante.
Rafael Costa: Concordo, e há dois comentários da própria equipa no Product Hunt que valem ouro por serem inesperadamente honestos. O primeiro é do VP de R&D, que diz que o que o impressiona não é o número de 60%, é a arquitetura por baixo: o modelo nunca executa ações diretamente. Só faz correspondência de pedidos a workflows pré-aprovados, e cada objeto a que se refere tem de resolver contra os dados reais do IdP e do MDM, senão o pedido simplesmente falha.
Rafael Costa: E a formulação dele sobre segurança era boa: prompt injection pode distorcer a interpretação do modelo, mas não tem onde a levar.
Sofia Almeida: Ou seja: a superfície de ataque não é "o modelo decide o que fazer", é "o modelo escolhe entre caminhos que já foram aprovados por humanos". Que é a resposta que um departamento de segurança teria desenhado. O outro comentário é do próprio dev, com um aviso de "pinch of salt", a dizer que a parte mais difícil não foram os agentes — foi a identidade. A pessoa que pede no Slack tem de ser provavelmente a mesma que o utilizador do Okta, o dono do dispositivo no Jamf, e o registo no HiBob.
Sofia Almeida: E o nome dessa pessoa está escrito de três maneiras diferentes nos três sistemas.
Rafael Costa: Essa é uma observação profundamente verdadeira sobre dados empresariais. O nome está escrito de três maneiras diferentes, e se te enganares nisso, construiste algo que repõe a password da pessoa errada com confiança absoluta. E há ainda um comentador que desafiou diretamente o número dos 60%, com uma objeção séria: diz que a maioria da fricção em suporte de IT não está no pedido em si, está nos casos-limite, onde a IA tem de saber quando escalar em vez de fazer erradamente com confiança.
Rafael Costa: A pergunta que ficou: qual é o modo de falha quando um agente erra? O colaborador denuncia? Ou há uma forma de o sistema apanhar a própria incerteza antes de agir numa mudança de acessos?
Sofia Almeida: E houve ainda uma objeção de mercado, vinda de alguém que conhece o espaço das equipas mid-market: diz que essas equipas já usam self-service do Okta ou do Google Workspace para resets e acessos, e que o triagem em chat nunca foi o gargalo. O problema real, segundo ele, é conformidade de auditoria, licenças de SaaS sem dono que ninguém desativa, e hierarquias de aprovação desorganizadas.
Sofia Almeida: E um agente a auto-resolver acessos em ferramentas de RH ou Finanças não terá a autoridade de aprovação verificada que um auditor exige.
Rafael Costa: Que é uma crítica justa e não deixa de ser um elogio indireto: se as críticas mais sérias são sobre governança e não sobre se a tecnologia funciona, é porque a tecnologia já se assume como funcional. O que fica em aberto para o Harmony é exatamente essa ponte: os números de auto-resolução, por um lado, e os requisitos de auditoria e de aprovação formal, por outro. Isso é que vai determinar se isto fica nas empresas mais pequenas e rápidas ou sobe para organizações reguladas.
Sofia Almeida: E com isso esgotámos o lado empresarial sério da IA. Agora vem a parte divertida da lista, e é uma mudança de mundo completa: saímos do Slack e dos helpdesks e entramos num servidor de roleplay de GTA V na Polónia.
Rafael Costa: Humalike. NPCs de IA para FiveM — que é a plataforma mais usada para servidores de roleplay de GTA. E o problema que atacam é, no fundo, o mesmo problema do Harmony, mas num universo paralelo: um servidor de roleplay depende de humanos a fazer roleplay uns com os outros. E muitas vezes não há jogadores suficientes online, ou ninguém por perto está no humor para a experiência que procuras. O mundo fica vazio.
Sofia Almeida: E a solução não é NPC que espera que primes E e escolhas uma opção de diálogo. Cada personagem de IA tem a sua própria identidade, personalidade e memória persistente. Reconhecem jogadores e constroem relações separadas com cada pessoa que encontram. Reagem a conversas, roupa, máscaras, armas, tiros e eventos do servidor. E — este detalhe adorei — decidem o que revelar, o que esconder e quando mentir.
Rafael Costa: E a variedade de papéis funcionais é o que faz isto parecer um produto e não uma demo. Há pacientes de EMS que pedem ajuda e entram em cenários médicos. Há testemunhas que se lembram de eventos e vão falar com a polícia. Reféns que reagem a ameaças. Informantes que trocam segredos com jogadores de confiança. Guias que explicam as atividades do servidor. E personagens custom ligadas aos teus scripts e storylines.
Sofia Almeida: E depois há uma camada que me parece a mais ambiciosa: sociedades de IA inteiras. Grupos ligados, não personagens isoladas — gangues, equipas de EMS, clubes de motos, negócios, facções originais. Os membros partilham conhecimento e memória de grupo. Portanto, uma interação com um membro pode mudar a forma como toda a organização te vê. Isso é um passo além do NPC individual com memória.
Rafael Costa: E a prova de escala é real, não é uma demo controlada. Os personagens vivem no Strefa RP, o maior servidor de roleplay da Polónia. Em três semanas: mil cento e oitenta e nove jogadores diferentes conversaram com NPCs, mais de duzentas e cinquenta mil voltas de conversa, e trinta e quatro dias de tempo passado entre NPCs e humanos.
Rafael Costa: E o comportamento reportado é o mais interessante: os jogadores voltam aos personagens, constroem relações, e usam o que as personagens viram ou ouviram para descobrir informação nova. Ou seja, os jogadores já estão a tratar os NPCs como participantes do mundo, não como decoração.
Sofia Almeida: E o fundador, o Michał, deu contexto pessoal que explica a motivação: ele costumava gerir o seu próprio servidor de GTA Roleplay, e conhece em primeira mão quanto trabalho dá criar um mundo ativo e social — e como essa experiência se desfaz quando não há jogadores suficientes. Não é uma equipa a construir para um mercado que imaginaram; é alguém que viveu o problema.
Rafael Costa: Do lado comercial: plano Starter a 79 dólares por mês com vinte e cinco mil interações, plano RP a 119 com cinquenta mil, os primeiros mil interactions gratuitos em ambos, e compatibilidade com ESX, QBCore, QBox, Standalone e frameworks custom. A instalação é um recurso no FiveM, e crias personagens, personalidades, vozes e conhecimento numa plataforma, sem código.
Sofia Almeida: E as perguntas abertas da comunidade são as boas. Alguém perguntou qual é a janela de memória — quanto é que um NPC se lembra de um jogador individual entre sessões. Outra pessoa, que trabalha em agentes de voz telefónicos, levantou a questão da latência: alguns milissegundos extra transformam uma interação de voz "em tempo real" em algo laggy que quebra a imersão.
Sofia Almeida: E num servidor multiplayer com vários NPCs a potencialmente reagir ao mesmo evento ao mesmo tempo — a perceção e resposta correm por NPC de forma independente, ou há uma camada de estado de mundo partilhado que agrupa o que está a acontecer, para não pagares a latência N vezes por N personagens?
Rafael Costa: Que é uma pergunta de engenharia muito sofisticada e sem resposta nos materiais. Há ainda a questão de controlo: os donos de servidores conseguem controlar personalidade, backstory e regras comportamentais? O site diz que sim — nome, backstory, personalidade, conhecimento e segredos, voz e estilo, aparência e modelos custom, gostos e deslikes e motivações. Mas como isso funciona na prática, em detalhe, é algo que a discussão deixou em aberto.
Rafael Costa: E uma pessoa deixou a pergunta mais divertida de todas: o que acontece quando múltiplos NPCs com personalidades diferentes interagem entre si? Essa resposta, pessoalmente, pago para ver.
Sofia Almeida: E agora, o fecho do arco da IA — porque o próximo produto resolve o problema que ficou pendente desde o início: os modelos erram com o mesmo tom confiante com que acertam. Se estás a correr workflows cada vez mais automatizados, precisas de uma forma de verificar. E é aí que entra o Cuey.
Rafael Costa: O Cuey é uma extensão de Chrome que funciona ao lado do ChatGPT, Claude e Gemini. A ideia: faz uma cross-check da resposta do teu modelo contra ChatGPT, Claude, Gemini e mais de trinta outros modelos, em segundo plano. Destaca onde discordam e o que o teu modelo pode ter deixado escapar. Sem copy-pasting entre tabs, sem repetires o contexto, sem subscrições extra.
Sofia Almeida: E o problema que ataca é reconhecível para qualquer pessoa que usa IA regularmente. O fundador descreveu-o no lançamento: aquela altura em que estás prestes a agir sobre uma resposta de IA que soa completamente convincente... até perceberes que está errada. E resolver isso hoje dá um trabalho surpreendente: copiar prompts de modelo para modelo, comparar respostas, voltar a dar o mesmo contexto repetidamente.
Rafael Costa: Um comentador descreveu exatamente isso como a sua dor: casos em que usou uma resposta confiante de IA e só depois descobriu que havia algo errado. E a parte irritante, dizia ele, é abrir ChatGPT, Claude e Gemini separadamente e fazer a mesma pergunta três vezes. Portanto o público-alvo é claro: pessoas que já comparam respostas antes de decidir em que confiar, mas que o fazem à mão.
Sofia Almeida: E há um comentário que aponta o verdadeiro diferenciador: não é a comparação em si — isso já existe em várias formas — é o contexto portátil. O Cuey leva o teu contexto entre ferramentas de IA, portanto cada segunda opinião já considera a informação que importa. Sem isso, estás a re-explicar o teu problema três vezes, o que mata metade do valor da comparação.
Sofia Almeida: O comentador ainda citou o Ben Thompson, do Stratechery, sobre "escrever as coisas": o ato de escrever é o que torna a aprendizagem extensível e escalável. Ficares agnóstico em relação ao modelo e usares o melhor para cada tarefa — isso é uma filosofia, não só uma funcionalidade.
Rafael Costa: E a pergunta em aberto aqui é excelente, e voltámos a ela nos últimos meses em vários produtos deste tipo: quando os modelos discordam, o Cuey diz-te qual é que é mais provavelmente certo, ou apenas surface a divergência e deixa o julgamento contigo? Porque, como o comentador pôs muito bem: para muitos casos, saber que estás errado é só metade do problema — ainda precisas de um tiebreaker.
Sofia Almeida: E que ainda não sabemos. Também não sabemos, a partir dos materiais, como funciona exatamente a comparação em segundo plano sem interromper o fluxo de trabalho — houve quem perguntasse — nem se virão mais modelos como Grok ou Perplexity. Mas o conceito está claro e endereça um gap real: a verificação é a parte do workflow de IA que menos ferramentas tem.
Rafael Costa: E é aqui que a nossa história faz uma curva completa. Passámos o episódio todo a falar de IA — mais barata, mais proativa, mais agente, mais verificável. E agora vamos ao hardware, porque há um lançamento de hoje que nos lembra que nem toda a inovação passa por modelos. Às vezes é só... um botão. Ou muitos.
Sofia Almeida: O Clicks Communicator. Um telefone Android 17 compacto, construído em torno de um teclado físico e de um ecrã inicial feito para conversas. O slogan é ótimo: desenhado para "fazer", não para doomscrolling. O ecrã é de 4,03 polegadas AMOLED — pequeno de propósito — e funciona como telemóvel principal ou como companheiro de um iPhone, Galaxy ou Pixel.
Rafael Costa: E as funcionalidades são coerentes com essa filosofia. O teclado é touch-sensitive — podes percorrer a inbox, mensagens ou páginas web sem sair do teclado. Há um LED de sinal que personalizado alerta-te quando pessoas ou apps específicas tentam contactar-te — a mãe, o Telegram, o chefe, o WhatsApp, cada um com o seu sinal. E o Message Hub traz as mensagens das tuas apps favoritas para o ecrã inicial, com atalhos de teclado para rapidamente fazer triagem e agir.
Sofia Almeida: A tecla lateral faz input de voz: segurá-la para ditar, gravar algo ou transcrever uma reunião. O sensor de impressão digital está na barra de espaço — pousas o polegar e saltas diretamente para o Message Hub. É um desenho onde tudo o que é comunicação está à distância de um polegar, e tudo o que é distração requer um esforço deliberado.
Rafael Costa: Especificações, porque importa num telefone: 12GB de RAM, 256GB de armazenamento com MicroSD até 2TB, bateria de 4.350 mAh, câmaras de 50MP com OIS atrás e 24MP à frente, carregamento Qi2 wireless compatível com MagSafe, jack de 3,5mm — sim, ainda existe — 5G, NanoSIM mais eSIM. 170 gramas. E o preço de lançamento: 499 dólares, abaixo dos 649, com a oferta a terminar a 30 de setembro.
Sofia Almeida: Um detalhe positivo do lançamento: a Clicks subiu o hardware final para 12GB de RAM e a bateria de 4.350 antes de enviar, sem aumentar o preço de 499. Isso é o tipo de decisão que constrói boa vontade numa comunidade. E há compromissos de software concretos: lança com Android 17, com suporte até pelo menos Android 20 — mínimo de quatro anos de atualizações de versão e cinco de segurança.
Rafael Costa: Layouts de teclado: QWERTY inglês, AZERTY francês, QWERTZ alemão, coreano e árabe. E um detalhe prático importante: os layouts estão ligados à região, portanto se quiseres um AZERTY a partir de Portugal, terás de mudar a região da loja para França antes de encomendar. E há um aviso sério da própria marca: não escolhas um layout que não é suportado na tua região, mesmo que apareça, porque por requisitos de certificação não conseguem cumprir a encomenda.
Sofia Almeida: E a questão que muita gente vai fazer: e as chamadas? A resposta das FAQ é honesta: chamadas por internet — WhatsApp, Telegram, Facebook — são transferidas do telemóvel principal. Mas se quiseres fazer e receber chamadas tradicionais por rede celular, precisas de um segundo SIM ou número. Portanto, como companheiro de comunicações, funciona de forma nativa; como telemóvel principal completo, também funciona — é Android 17 com todas as apps e 5G — mas convém saber isso do SIM.
Rafael Costa: E a reação da comunidade foi calorosa de uma forma específica. Uma pessoa escreveu que há algo de bonito num telefone que põe o teclado de volta ao centro, que o ecrã claramente não é o ponto principal, e fechou com "aparentemente, os botões ainda fazem muito sentido". Outra pessoa disse que enviou imediatamente para dois amigos que ficaram entusiasmados e que já sabe o que vai oferecer no Natal.
Rafael Costa: E — este é o meu detalhe favorito — essa mesma pessoa usou o comentário no Product Hunt para reportar um bug de marketing: o site promove um desconto de 30 dólares, mas no segundo passo do fluxo, na ferramenta de marketing por SMS, aparece 20. A pessoa até reconheceu que o desconto correto está a ser entregue, mas pediu para corrigirem a figura para evitar confusão.
Sofia Almeida: Que é o testemunho mais humano possível de uma comunidade: as pessoas não estão só a elogiar, estão a fazer QA de graça. E houve uma pergunta técnica afiada que fica em aberto: sobre o teclado touch-sensitive — na maioria destes telefones retrô com teclado, as teclas são input puramente mecânico e colam uma zona de gestos na barra de espaço, na melhor das hipóteses.
Sofia Almeida: A pergunta era: a camada touch substitui completamente o trackpad, ou é aditiva — consegues ainda posicionar o cursor arrastando nas teclas, como o truque antigo do teclado-como-trackpad da BlackBerry?
Rafael Costa: Essa é uma pergunta que não tem resposta nos materiais, e é uma que vai importar muito a quem vem de um BlackBerry — que é, presumivelmente, uma parte significativa do público-alvo. Fica registada. E do Communicator saltamos para o último lançamento do dia, que também é sobre tirar fricção do teu dia a dia no computador — mas deste vez no Mac, e sem qualquer hardware novo.
Sofia Almeida: KiwiDesk. Um gestor de janelas em mosaico para macOS, do desenvolvedor alemão Maikel — solo, aliás. E a motivação dele é genuína: adora tiling window managers, mas nunca conseguiu recomendar um a amigos não-programadores, porque no macOS todos exigem configurações em terminal — e o mais poderoso deles quer que desatives o SIP, o System Integrity Protection, que é uma proteção fundamental do sistema.
Sofia Almeida: A pergunta dele resume tudo: porque é que a gestão de janelas no macOS não funciona simplesmente out of the box, com uma interface gráfica nativa, em vez de configs de terminal e setups à Linux?
Rafael Costa: A resposta dele é o KiwiDesk. As janelas organizam-se sozinhas — há sete layouts, incluindo um desktop de scroll infinito onde as apps ficam numa fita que desliza conforme o foco. Há uma app de definições verdadeiramente nativa, com sliders e seletores — nenhum ficheiro de configuração. Os utilizadores de rato têm barras clicáveis de espaços e apps; os de teclado têm hotkeys, camadas estilo Vim, e uma funcionalidade chamada "Open or Focus": uma tecla abre uma app ou traz a janela dela até ti.
Rafael Costa: E os perfis ligam-se aos Desktops nativos do macOS — associas um perfil a cada Desktop e ele carrega no momento em que deslizas para lá, com os seus próprios espaços, layouts, cores e atalhos.
Sofia Almeida: No lado da segurança e da filosofia, é o que me parece o grande diferencial: só precisa da permissão de Acessibilidade. Sem desativar o SIP, sem input monitoring, sem conta, sem analytics. Gratuito para uso pessoal, código-fonte disponível sob BSL 1.1 — que é MIT quatro anos após cada release — e há Lua e CLI por baixo para power users. macOS 14 ou superior em Apple Silicon, instalável via Homebrew ou DMG notarizado.
Rafael Costa: E o comentário mais revelador da comunidade veio de alguém que disse exatamente o que o Maikel devia querer ouvir: que "precisa apenas da permissão de Acessibilidade, sem desativar o SIP" era o ponto de venda real por comparação com os gestores de terminal, e que esse era exatamente o tradeoff que impedia a pessoa de recomendar o yabai — que é um dos gestores de tiling mais conhecidos — a alguém não-técnico. Portanto, a tese do produto foi validada pelo público certo, na primeira reação.
Sofia Almeida: E a pergunta em aberto é boa: como se comportam os perfis por Desktop com monitores externos? Se desligares um segundo ecrã, o layout ligado àquele Desktop espera pelo monitor voltar, ou é reatribuído ao Desktop seguinte e perdes o mapeamento? Sem resposta nos materiais, mas é o tipo de edge case que decide se isto é algo que usas todos os dias ou algo que desinstalas na primeira frustração.
Rafael Costa: E com isto fechámos a lista. Vale recapitular o arco, mesmo que brevemente: começámos com modelos de IA a metade do preço, que vão alimentar mais automação; vimos assistentes que vivem nas tuas apps; plataformas onde agentes executam trabalho de IT de verdade, com a identidade como o problema mais difícil; NPCs com memória num servidor de roleplay na Polónia; uma ferramenta para verificar o que os modelos dizem; e terminámos no mundo físico — um telefone com teclado e um tiling manager para Mac.
Sofia Almeida: E o que fica de comum em tudo isto, para mim, é a mesma pergunta em formas diferentes: quando a tecnologia age por nós — ou em nosso lugar — como é que mantemos o controlo? Seja um modelo que confessa menos mentiras, um assistente que tem de adivinhar quando incomodar, um agente de IT que precisa de saber quando escalar, ou um NPC que decide quando mentir — tudo isto é a mesma fronteira vista de ângulos diferentes.
Rafael Costa: E as perguntas em aberto que hoje ficaram sem resposta — o tiebreaker do Cuey, a latência do Humalike, os monitores externos do KiwiDesk, a afinação de ruído do Superhuman Go — são as que vão determinar quais destes produtos existem daqui a um ano. Como sempre, tratámos tudo o que os fabricantes disseram como alegações, não como factos verificados, e usámos os comentários da comunidade como experiência atribuída, não como consenso.
Sofia Almeida: Obrigada por nos ouvirem. Eu sou a Sofia Almeida.
Rafael Costa: E eu sou o Rafael Costa. Até amanhã, com mais um briefing.